SOBRE A MUSEALIZAÇÃO DE ACERVOS INY-KARAJÁ: DESAFIOS E POSSIBILIDADES PARA UMA PRÁTICA DECOLONIAL

Camila Azevedo de Moraes Wichers

Resumo


Neste artigo, apresento aspectos da musealização de acervos Iny-Karajá, indicando as barreiras e potencialidades no cenário contemporâneo. Inspirada pela prática decolonial e pela experiência etnográfica vivenciada no projeto “Rio Araguaia: lugar de memórias e identidades” busco trazer reflexões acerca dos processos de colecionamento do povo Iny-Karajá, partindo de uma breve descrição da trajetória das pesquisas e formação de coleções desse povo. Passo, então, a apresentar algumas premissas e conceitos do processo de musealização, bem como a perspectiva decolonial. Por fim, apresento o projeto Rio Araguaia, destacando duas experiências de musealização que demonstram os desafios e as possibilidades evidenciadas pela interface entre Arqueologia, Antropologia e Museologia e, mais que isso, a partir do diálogo intercultural.

Palavras-chave


Arqueologia Etnográfica; Musealização; Povo Iny Karajá; Rio Araguaia; Decolonialidade.

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DOI: http://dx.doi.org/10.18224/hab.v17i1.7258

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